[Alqueva, Alentejo] o caminho da água faz-se no plano inclinado dos nossos sentidos. no beijo que escondemos da nossa aflição. do gesto que encerramos nas nossas mãos. prendemos o tempo que não cabe no relógio para que cada hora seja mais. numa viagem de atalhos que se descobrem do avesso.
No lado de cá da cidade, entre o quase nada e o tudo, alongava-se um delicado e doce outeiro. Pelas encostas, sentavam-se searas de tremocilha. Na valentia dos caules, fundava os pilares e aprumava a trave mestra da vida de brincar. Na construção do telhado, chegavam os restos amarrotados do lençol. E a ilusão de uma casa só para mim atrapalhava-se com a audácia do ato. Ali permanecia o tempo necessário até o perfume da tarde tornar as horas muito pequenas. Ao amarelo das espigas pilhava o açúcar do sol e o orgulho de me aceitar afortunada. Ali, no resguardo das folhas, bebia o néctar da sombra. E quando as papoilas ousavam entrar, erguia-se o nobre grito do banquete. Numa embriaguez mais que calada, incendiava episódios de alegria que agora desenho na parede à margem do turbilhão de vozes que circulam lá fora. Para me refrescar com a chegada da chuva. Para, no regresso de cada primavera, cultivar a saudade das arrependidas flores.
Cheguei cedo. A manhã aparecera titubeante e o sol não queria escandalizar as nuvens que encontrara no caminho para cá. Havia uma abundância de cinzento desmaiado que crescia sem sabor a sal. Eu entrei, espreguicei-me persuadida de estar a libertar saldos urbanos de cansaço. Sentei-me, pus-me a olhar, certa da limitação dos meus olhos. E ali, no ventre nutrido do silêncio, arrumei os livros e os papéis que formigavam sobre a mesa. E li numa leitura discreta, como se quer num local destes. Fui para o outro lado de mim. Muito devagarinho, sem que ninguém visse, virei-me do avesso. Numa desarrumação perfeita.
Que beleza é essa que carregas nos braços que um dia foram teus e meus e nossos num enleio afogado no viço as folhas? que pranto conformado e tão dorido derramas pela sombra do caminho? recolhe essas lágrimas feitas largueza e profundidade e ergue-te no deslumbramento do verde. no instante em que a água alimenta a alegria das mãos. e os corpos se beijam à tardinha.
... há chuva... que alaga os campos... afaga a pele e desagua mais além. onde a foz se redime num abraço. sabe bem chegar a casa. uma explosão de calor. no aconhego do frio.
... tenho saudades deles... lembro-me tanto... das histórias que a minha mãe me contava... do encanto por ele... do namoro... do primeiro beijo roubado à paciência da minha avó...
... afinal, os barcos também morrem... serenamente... e ficam no mar... num abraço azul... até ao céu... o monte não morreu, sabes? Eu vi... por ti... a janela do teu quarto... foi o passeio da saudade... de ti... dali...
... e tudo se enrolou numa gigantesca bola de sonhos... por onde passei a saudade... de ter... mas este já não era o meu rio...
... um mar de areia quente... bordava a morna água... uma praia enorme... numa tranquilidade assim...
Museu do Arroz... restaurante instalado numa antiga fábrica de descasque arroz na Comporta ... um espaço moderno e estilizado... feérico... quente... admirável... e muito é tão pouco... no tanto que gostei...
... chegámos à Comporta com a fome na barriga... gulosa... antes de entar, o rio confessou algum sono... para também sonhar... e quando eu ia falar, a noite ergeu o dedo indicador ... e obrigou-me a olhar... apenas olhar... saborear... o sabor da sua pele...
... a beleza ajoelhou-se à minha frente... beijei-lhe os pés... enlouqueci assim... às escuras... tudo ficou mais claro... e atirei-me por ali...
o final da tarde passeava calores....a brisa empurráva-nos para a água... estava tudo tão sereno... mas sobrava tanta fome fome...
acautelámos a dormida... lá para os lados do Carvalhal... não foi fácil... agosto estava quente... conversas salpicadas de lágrimas de tanto rir... mais .... as lavras de arroz eram tantas... deitámos o sono... nas pontas da gargalhada... da janela do quarto acordava um tranquilo pedaço de verde sonolento ... na irregularidade das formas...
... e de tanto que já tínhamos gargalhado... até rimos das cegonhas... chamei-lhes gaivotas... tanto que se ofenderam... quando lá voltar, peço-lhes desculpa... e o sumo de laranja... no cantinho... admirável...
... descemos pela árvore... sentiste o vento que afagava as folhas... provaste os frutos... foste comigo até à raiz... eu falei-te da concertina... e dos poemas... e tu disseste que a poesia estava ali... o meu pai dizia que és boa pessoa... muito.... recordámos... emocionámo-nos... mais uma vez... duas lágrimas despiram-se no rio... que corria serenamente... deixando pedacinhos para trás...
"O Cais Palafítico da Carrasqueira, património único na Europa (...)."
"Na Carrasqueira, onde os primeiros homens se fixaram há mais de cinco mil anos, os seus sucessores construíram no século XX um labiríntico emaranhado de estacas e passadiços. De artimanha pensada para enganar a natureza e transpor a barreira de lodo criada na vazante, a estrutura tornou-se neste cenário único no mundo. Junto aos improvisados cais, barcos de pesca vão e vêm, numa azáfama própria de quem procura no mar o seu sustento. Aqui, literalmente, caminha-se sobre as águas."... e eu caminhei... e andei ao contrário...
... o meu rio... ali na generosidade azul... tranquilo.... os mergulhos... os caranguejos... os robalos... o bote... e repentinamente o tempo começou a rir à gargalhada... para trás... calei as palavras... no cheiro a maresia... minha... dela...
de longe...
pertinho...
o rio... o arroz...
... tive que ver para crer... ressuscitou... o monte... a doce parvalheira... nova.... a janela... a porta... estava lá tudo... ou nada... e na maior onda de espanto... ouvi o meu avô a tocar concertina... os miúdos encarocalados pelas escadas... com o prato nos joelhos... a mesa era coisa de adultos... e veio um cheiro tão intenso a água mel... e a pão que chegava de manhã... na cabeça dela... fui até lá! e tanto... tanto que sonhei...
[editada]
... e os meus olhos esfregaram-se de alegre espanto... incrédulos... na boca encapelavam-se palavras anacrónicas... arrebatadas... doidas... correntes inusitadas estendidas até rio... admitia-se o erro... embriaguez de momentos lindos... retalhos de cetim ... não! não é aqui. vamos mais um pouco... talvez... e alaridos de espanto afugentaram os pardais... as garças que se nutriam nos arrozais... à minha frente, estendia-se uma aguarela... água... [r]... ela...
... e o calor escorria-nos pelos rostos... estatelava-se na estrada em círculos confusos... vamos! e corríamos... eu passeava as memórias... ali! um restaurante.... que foi uma escola... na alimentação continuada dos corpos... ali!! parámos ... "Antigamente eram pés descalços que faziam o caminho até esta escola que deu a primeira lição em 1950. Hoje é de carro que se chega. Quem vai a Cachopos, entre Tróia e Alcácer do Sal sabe “de cor e salteado” alguns dos atributos da cartilha que agora passou a ser gastronómica"... lembrei-me de tanto... tanto... vamos... até lá...
... vira! à direita... pela estrada rolavam alegrias espavoridas .... moderadamente areadas... polvilhadas de tempos verdes... de pinhas sorridentes... as brasas desfaziam-se em doces incandescências ... saltavam os pinhões... Vamos! Até lá...
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